História

Quando tudo começou

1939 foi um ano complicado. Havia dois anos que a Polaca, a Constituição autoritária de Getúlio Vargas, instalara o Estado Novo e seu Tribunal de Segurança Nacional aplicava o conceito de um governo “liberto das peias da democracia liberal”, a torto e a direito – “muito torto e nenhum direito”, garantia o escritor Graciliano Ramos, desde o fundo da cela da prisão. Ou como preferia, Carlos Drummond de Andrade, a época em que “o espião janta conosco”. O nazi-fascismo fazia escola em toda parte.

Santos ainda espiava as conseqüências da revolução de 32. Mas o fazia ao som das “ondas radiofônicas”, o novo e poderoso meio de comunicação que trazia os discursos de Getúlio, mas trazia também Chico Alves, Araci de Almeida, Carmem Miranda, Dalva de Oliveira, Ataufo Alves, Lamartine Babo, Pixinguinha… Cantava-se “Camisa Listrada”, o grande sucesso da época, como uma homenagem a Noel Rosa, que partira, para nunca mais, em 37.

Era uma cidade em vertiginoso crescimento, acompanhando a Capital do Estado, onde “eram caminhões, bondes, auto-bondes, anúncios-luminosos, relógios, faróis, motocicletas, telefones, gorjetas, postes, chaminés… eram máquinas e tudo na cidade era só máquina”, nas palavras de Mário de Andrade, que dispensou as vírgulas para imitar, no papel, o ritmo frenético da vida.

Santos era o paraíso dos dândis paulistas com seus hotéis de luxo, uma ilha dos mais iguais que os outros, que podiam ver “The Public Enemy”, filme censurado pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, em sessões privadas. Uma transgressão chic, que ajudava a trazer James Cagney e a “vénus platinada” Jean Harlow, para o centro dos modismos. Os “despachos telegráficos” dos jornais, substituídos rapidamente pelo “jornal da tela”. E bom mesmo eram as noites regadas a champanhe no Miramar, na Conselheiro Nébias – “vá ainda que chova”, dizia o slogan – para ver o must do momento: Carlos Gardel.

Fazia um ano que o Porto de Santos fora elevado à condição de terminal de primeira classe e o café jorrava o dinheiro que gerava famas, enchia cassinos, lotava as ruas de Motoblocks e Fords, aquelas “máquinas maravilhosas”.

Médicos estavam em alta, mais que nunca. Usufruíam de uma gratidão sem fim, depois de estarem na linha de frente do combate às epidemias nas duas décadas anteriores. Não havia sido, porém, como uma “tabelinha”, daquelas que aconteciam nas melhores “porfias do esporte bretão”, a relação entre os médicos santistas e os engenheiros de Saturnino Brito. Como no futebol que despontava, as rivalidades cresciam. Mais importante foram os médicos ou os engenheiros? O bate-boca consumiu mais tempo que a epidemia.

Os engenheiros montaram sua associação em 37. Nada mais natural, frente aos fatos, que médico algum quisesse ficar atrás. Já havia três ou quatro anos que se conversava a respeito de uma associação. Segundo M.S. Remião, secretário da AMS por muitos anos, o patologista Samuel Augusto Leão de Moura sonhava reunir os colegas de profissão em uma entidade de classe, um lugar onde também seus familiares pudessem conviver em momentos de lazer. E não só para isso, naturalmente. A rigor começou pela rusga – e até pela necessidade de unificar a voz – a ideia de uma Associação dos Médicos de Santos. O associativismo, além disso, estava em alta. Leão de Moura montou uma comissão para estudar o assunto. Estavam nela Arthur Domingues Pinto, Osvaldo Santiago e Dirceu Vieira dos Santos, entre outros. A primeira assembléia foi sintomaticamente presidida por Mário Gracchi Pinheiro Lima, então chefe do Serviço Sanitário em Santos – posto de onde os médicos haviam apeado os engenheiros. Foi um êxito. Todos os participantes da reunião foram considerados fundadores da nova associação.

A data oficial, escolhida a dedo, foi o sete de setembro daquele ano de 1939. Leão de Moura foi o primeiro presidente da entidade que tinha sua sede na Av. Conselheiro Nébias 397, a mais
requintada da cidade. Ao seu lado, na primeira diretoria, Antônio Guilherme Gonçalves, Mário Graccho Pinheiro Lima, Edgardo Boaventura, Edgard Falcão, José Cardamono, Antonio Arantes, Ciro Werneck de Almeida, Emílio Navajas Filho, Durval Livramento Prado, Hugo Santos Silva, José Dias de Moraes, Gastão Ayres e Nicolino Rebello Machado. O primeiro médico a falar em reunião científica em nossa AMS foi Emílio Navajas Filho, que relatou observações de um Congresso de Ortopedia. A saúde já despertava interesse. No dia 10 de dezembro de 1939, por exemplo, aconteceu uma palestra radiofônica nos estúdios da Hora Médica do Brasil, em que foi discutida a política hospitalar de Adhémar de Barros. Leão de Moura ficou até 1940.

Em 1941, assumiu o cirurgião Arthur Domingues Pinto, profissional respeitado internacionalmente e o primeiro a fazer uma cirurgia cardíaca a céu aberto na América do Sul. Na equipe da Santa Casa na época, operavam também os médicos Marcílio Dias Ferraz, Eduardo Barreto de Souza e Hermano Vasconcellos. Em sua gestão na AMS Domingues Pinto incentivou muito a parte científica, organizando 15 reuniões com as salas lotadas de sócios. Em sua gestão estavam José Dias de Moraes, Dirceu Vieira dos Santos, Nicolino Rebello Machado, Milton Macedo Soares, Ciro Werneck de Almeida, Alcebíades Salles, Carlos Moreira Gomes, Oswaldo Santiago, Manuel Silvestre Figueiredo, J.R. Araujo Costa, Emílio Navajas Filho, Marcilio Dias Ferraz e Edgard Falcão. Em janeiro de 41 a AMS lançava seu primeiro boletim científico.

Ao final de seu mandato já não se falava mais da encrenca com os engenheiros. Os tempos eram outros, trazendo novas preocupações, particularmente a guerra na Europa, que acabaria batendo em nossas portas pouco tempo depois. Apesar de seu pouco tempo de existência, a Associação dos Médicos de Santos estava consolidada no início dos anos 40.

Em 1942, o mesmo ano em que no mês de setembro foi decretado o Estado de Guerra em todo território nacional, assumiu Dirceu Vieira dos Santos, tendo na vice-presidência José Dias de Moraes. Em setembro desse ano o presidente da República, Getúlio Vargas, prometeu auxiliar financeiramente na construção do novo hospital da Santa Casa da Misericórdia de Santos.

Dias de Moraes incentivou a classe para a compra de uma sede, o que foi concretizado em assembléia geral no dia 20 de outubro, quando foi autorizada a aquisição. Nessa época, Dias de Moraes estava substituindo Dirceu Santos e foi feita a compra da sede na avenida Ana Costa 388, onde está até hoje, por CR$100.000,00.

José Dias de Moraes assume a presidência em 1943, ano em que em setembro foi inaugurado o novo hospital da Santa Casa da Misericórdia de Santos, com solenidade e placas de homenagem aos médicos ilustres. Na AMS, com os CR$ 40.000,00 que sobraram da verba obtida para a compra da casa foram feitas reformas na sede. A vida social ficou mais descontraída para os médicos, que compareciam na AMS para uma partida de xadrez ou bilhar, cafezinhos e muitas conversas. Em sua gestão aconteceu a primeira reunião dançante.

Quando Edgardo Boaventura chegou à presidência em 1944 Santos estava em uma ótima fase esportiva, brilhando nos Jogos Abertos de Taubaté. A AMS, por sua vez, também se destacava no esporte vencendo o Torneio Esportivo envolvendo médicos, engenheiros e advogados. Nesta gestão foi inaugurada a barraca na Praia do Boqueirão, um novo ponto de encontro para a classe. Boaventura chegou a ocupar o cargo de prefeito de Santos algum tempo depois. A Cidade nessa época já passava por problemas na área social, com a expulsão de famílias carentes que moravam em boxes, no Jóquei Clube de Santos, e não tinham para onde ir.

Chega 1945. Pilotos brasileiros são condecorados na Itália em fevereiro. Na Cidade, muitos prejuízos com o incêndio de uma fábrica de banana, na rua Senador Dantas. Nesse mesmo ano Jorge Amado vem a Santos para fazer conferência no auditório da Rádio Atlântica. Na AMS é a vez de João Carlos de Azevedo na presidência. Com total dedicação ao cargo, ele realizou as primeiras reuniões reivindicatórias de interesse da classe. Na área social, destaque para a realização da primeira festa junina.

O lado católico de Santos aflorou no ano de 1946, quando a cidade hospedou o chefe da Igreja Portuguesa, o cardeal Manoel Gonçalves Cerejeira, com manifestações marcantes de fé e homenagens. Assume o pediatra Alberto José Aulicino. Eram tempos difíceis aqueles no porto de Santos, que sofria com problemas de superlotação de mercadorias, necessitando urgente de uma ampliação. Em setembro desse ano foi promulgada a Constituição da República. Na AMS, uma gestão movimentada, com 40 reuniões científicas, excursões, baile à fantasia, cursos de línguas para os médicos, jantar dançante de aniversário e a criação da Galeria dos Ex-presidentes, que foi mantida.

Antonio Alves Arantes assumiu em 1947, um ano importante para a paz mundial com a instalação da Assembléia Geral das Nações Unidas, justamente para tentar evitar a ameaça de uma nova guerra. Ele completou a classificação da biblioteca da AMS e trouxe como palestrante o professor Almeida Prado, que veio falar na solenidade de aniversário sobre “A Arte Através da Patologia”. Durante seu mandato também organizou campanhas contra o câncer e contra a tuberculose.

Edgard Boturão chegou à presidência no mesmo ano em que foi definida a política externa do Brasil. A nível internacional, em 1948 também aconteceu um fato importante, quando a Rússia foi acusada de sabotar a paz. Na AMS tempos de cursos, reuniões e uma bela exposição de Guiomar Fagundes. A compra de um projetorde slides veio atender as necessidades do grande número de reuniões científicas. O Brasil abriu os debates na assembléia geral da ONU, enquanto a União Soviética detém o segredo da bomba atômica. No mercado internacional, o FMI faz a proposta de desvalorizar várias moedas estrangeiras para solucionar a escassez de dólares. Em Santos, Luiz de Souza Dantas Forbes na presidência da AMS deu inicio aos cursos de extensão universitária, como o de Medicina e Cirurgia. Na área cultural promoveu recitais de piano, violão, declamações e até humor, além de palestras sobre pintura e fotografia. Na sede, aconteciam também as reuniões do lapetec. O jantar de aniversário da AMS ganhou brilho nos salões do Parque Balneário.

Ao final da década de 40, a Associação dos Médicos de Santos já era mais que uma experiência, mais que um esforço, mais que a união de uma categoria ou classe. Era sinônimo de ciência, cultura, atividade. Como deve acontecer com o que vem para ficar, a Associação, aos dez anos de idade, já fazia, definitivamente, parte da paisagem da cidade.

Anos 50

O fim da guerra quente nos trouxe a guerra fria. Ainda nem tinha esse nome na verdade quando o governo Dutra mostrou que a democratização iniciada em 45 não nos levaria automaticamente à democracia. A eleição seguinte, reconduzindo Getúlio Vargas ao poder, mostrava também que seu apelo popular continuava intacto. “Bota o retrato do velhinho, bota no mesmo lugar”, vingavam-se as marchinhas do rádio.

No início dos anos 50 o otorrinolarin¬gologista Oscar dos Santos Dias Sobrinho estava na presidência da AMS. Com muita colaboração do cirurgião Marcílio Dias Ferraz, que ocupava o cargo de tesoureiro, comandou a reforma na sede, com uma grande campanha para angariar fundos. Durante algum tempo as reuniões científicas aconteceram na Santa Casa. Junto ao Jornal A Tribuna, Oscar dos Santos Dias conseguiu um espaço chamado Vida Médica, escrita inicialmente por Maurício Fang. Em setembro desse ano era inaugurada a pedra fundamental da Refinaria de Petróleo de Cubatão, com a presença do presidente da República. Eurico Gaspar Dutra.

Durante a gestão de Edgard Ferraz Navarro, em 1951. a Cidace presenciou um triste acidente, quando quatro crianças morreram num desabamento de terra no Monte Serrat. Em 8 de novembro a sede foi reaberta com uma reunião festiva e tendo como orador o primeiro presidente, Samuel Augusto Leão de Moura. Em uma das reuniões cientificas Arthur Domingues Pinto apresenta o primeiro caso de coarctação da aorta. A grande novidade desse período foi a filiação junto à Associação Paulista de Medicina, em 27 de dezembro.

Finalmente em 1952 o porto de Santos começa a ser aparelhado, o que era uma previsão de melhoria econômica para a Cidade. Quem estava na presidência nesse ano era o cirurgião Marcílio Dias Ferraz, que em diretorias anteriores participava ativamente da AMS. Em sua gestão foram criados os departamentos de especialidades, o que deu um grande impulso às atividades cientificas na sede. Realizou, inclusive, um Simpósio sobre Coma, com projeções de filmes científicos e colaboração do Colégio Internacional de Cirurgiões. Criou o Departamento Cultural.

Em 1953 foi a vez do cirurgião e obstetra Acácio Ribeiro Valim, também escritor. Em agosto instalou o 2º Congresso Médico Regional da Associação Paulista de Medicina. Nessa época, Santos era uma cidade getulista até a medula. Não é de estranhar, portanto, que o suicídio de Getúlio, em 1954, gerasse um amplíssimo sentimento nacionalista e o trabalhismo, com o novo conteúdo destilado pela tragédia do Catete, explodisse na forma de uma ação político-sindical, que carregava como bandeira a tocante “Carta Testamento”. Santos era o palco do Fórum Sindical de Debates, com 53 sindicatos filiados, a mais poderosa organização de trabalhadores no país, vanguarda das lutas sociais brasileiras.

Santos progredia, crescia embalada por maior liberdade comercial nas atividades portuárias e pela consolidação da cidade como principal balneário paulista – os prédios art decó e de influências modernistas são um testemunho perene desse período em nossas ruas e avenidas. Juscelino Kubtscheck pode ter enterrado o país em dívidas, mas exalávamos esperança por todos os poros. Santos tinha um brilho próprio inconfundível, político e cultural, no final da década de 50 – ah!, o glamour que tinha, então, a esquerda.

Para a AMS fora um período brilhante aquele. A entidade avançara muito, aprofundando seus laços com a comunidade médica e com a cidade. Participava ativamente do desenvolvimento científico daquela “era de milagres”, como não cansava de repetir O Cruzeiro, a grande revista ilustrada que marcou aqueles anos tanto quanto a Copa do Mundo quanto a “polegada a mais” de Marta Rocha. Sir Alexandre Fleming, a maior celebridade científica da época, veio receber seu título de sócio-honorário da AMS, das mãos de nosso então presidente, Edmir Boturão, em 1954.

Victor Fernandes Vallejo assumiu no ano seguinte. Foi o ano em que Juscelino Kubitschek foi eleito Presidente da República e também quando perdemos Carmen Miranda. Mas eram bons tempos aqueles, quando era fácil reunir colegas e esposas na sede, todos se conheciam. Para Vallejo, sempre foi importante que a associação lutasse por melhores condições de trabalho para os médiaos.

Em 1956 assumiu o ortopedista Emilio Navajas Filho, desenvolvendo um ótimo trabalho não só na área científica, mas incentivando a freqüência à sede nas reuniões sociais e culturais. Seu sucessor foi o clínico e hemoterapeuta José Ferreira Pontes.

Em sua gestão começaram os trabalhos para qualificação de médicos no Conselho Regional de Medicina, com as primeiras carteiras de identidade desse órgão na Baixada Santista. Nessa época os médicos já passavam por alguns problemas com a Santa Casa, que impunha honorários baixos, o que motivou a reorganização da Associação Profissional dos Médicos, entidade que antecedeu ao Sindicato dos Médicos.

A gestão de Aloysio Ribeiro de Mendonça foi em 1958, ano em que a sede ganhou seu primeiro jardim, oferecido gratuitamente pelo Horto Florestal. A vigésima diretoria da AMS foi presidida por Jayme Melchert de Castro. Um ano importante para a indústria brasileira, com o lançamento do Fusca com uma linha de montagem genuinamente nacional. Melchert criou o Conselho de Orientação Científica, para coordenar todas as atividades da AMS, visando ampliar as atividades científicas. Realizando a I Jornada Médica Cirúrgica de Santos trouxe para a Cidade médicos de todo país e Exterior. Dorival Caymmi veio fazer o show da festa junina, entusiasmando os participantes.

Chegamos ao fim dos anos 50 com muita atividade e um enorme peso social. Previa-se mais para o futuro.

Anos 60

Quem iniciou a terceira década foi o cirurgião e urologista Alcebíades Salles, que realizou na sede além das reuniões científicas, recitais de piano, violão e apresentação de uma peça infantil do médico Oscar Von Pful. Em outubro desse ano o povo teve direito ao último voto direto antes da ditadura.

Quando o navio Uruguay Star deixou a barra de Santos em 1961, levando o ex-presidente Jânio Quadros, ficou no cais mais que aquela multidão atônita e órfã de seu líder meteórico. Ficou um conflito aberto. A cidade pararia nos dias seguintes numa greve que só seria encerrada com a posse do vice-presidente João Goulart. Santos, que era para aquela época o que o ABC foi para a década de 80, tornou-se estão a “cidade vermelha”, “a república sindicalista”, rotulada pela mídia e pelos líderes conservadores.

Não interessava que os comunistas, na verdade, não tivessem a força suposta ou que sindicato ou associação algum guardasse as tais “armas de guerra” de que falavam os jornais. Mas Santos dividia-se nas ruas. Desmoronava, pelo medo, a unidade entre trabalhadores e classe média que perdurara, entre tapas e beijos, por quase três décadas.

O prefeito eleito em março de 1961, Luiz La Scala Júnior, sofreu um acidente estúpido no dia de sua diplomação, em 4 de abril, agonizou por 80 horas na Santa Casa e morreu. Dez dias depois tomou posse o vice, José Gomes, já tido como “aliado dos comunistas”, o que consolidou a imagem “subversiva” da cidade junto aos golpistas que já planejavam o que viria em 1964. Confrontavam-se, de forma cada vez mais ríspida, os adeptos das “Reformas de Base” e os da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Santos freqüentava mais os grandes jornais que a maioria das capitais brasileiras.

A política também passou a fazer parte das conversas antes mais amenas na Associação dos Médicos, agora na presidência de Heitor Moreno. Inovando na atividade social ele organizou sessões cinematográficas para os sócios e tentou iniciar um serviço de refeições rápicas na sede, mas sem obter o movimento esperado. Em sua gestão a AMS recebeu um plano de credenciamento para seus associados da Refinaria Presidente Bernardes, no sistema de livre escolha, que foi bem aceito pela classe.

Jorge Vieira de Mello assumiu em 62, um tempo em que os médicos prestavam serviços em praticamente todas as instituições de saúde, o número de profissionais permitia essa situação. A AMS participou da programação da comemoração do Jubileu de Prata do Pronto Socorro Municipal. Na cidade, fracassava a greve geral que teve caráter nacional.

O clínico e cardiologista Jair de Oliveira Freitas deu sua contribuição para a história da entidade durante o ano de 63. Com sua conhecida sensibilidade e intuição aguçada percebeu que vários problemas estavam surgindo para os médicos e criou uma Comissão de Defesa de Classe.

Cada vez mais esquentava o panorama político em Santos. A paranóia golpista concretizou-se na forma de uma intervenção generalizada na administração da cidade e nos sindicatos, prefeito deposto e preso inclusive, em abril de 64. A ira dos conspiradores materializou-se na forma de um navio. Chamava-se Raul Soares, um velho cargueiro sem motores que foi encalhado defronte ao Paquetá, para servir de prisão política. Uma sombra sinistra ainda à busca de seu definitivo exorcismo.

Também no exercício profissional as dificuldades aumentavam quando Gino Sarti chegou à presidência. Era o ano em que se comemorava o Jubileu de Prata da AMS e ele pessoalmente idealizou um movimento para arrecadar fundos para as comemorações, buscando ajuda com laboratórios, empresas, colegas e amigos. A união e a amizade entre os colegas era muito forte. Em sua gestão foi realizado o I Seminá¬rio das Classes Liberais, com apoio da AMB, com os temas principais sobre seguro saúde e fluoretação. Em 64 a Santa Casa da Misericórdia foi considerado o hospital mais bem organizado da América do Sul.

Frederico Menzen Jr., patologista, comandou a entidade em 1965, realizando as atividades com muito critério para acompanhar os dias difíceis. Ele foi o primeiro a promover reuniões musicais com a participação só de médicos na execução, liderados pelo colega J. Carlos Braga de Souza.

Celso Aguiar foi presidente no ano de 1966, fez várias reformas na sede, aparelhou o salão de conferências com um serviço de autofalantes, instalou aparelhos de ar condicionado no salão principal, e fez um belíssimo baile de aniversário (de smoking) no Parque Balneário Hotel. A reunião científica mais polêmica em sua gestão foi a mesa redonda sobre a pílula anticoncepcional. Depois dele foi a vez de Antonio Augusto Arantes, o primeiro a assumir o mesmo cargo exercido por seu pai anteriormente. Foi um ano de muítos movimentos reivindicatórios da classe, começaram as lutas para a livre escolha, ocorreu a unificação dos institutos, foram realizadas várias assembléias na AMS. Foi o ano da criação da Faculdade de Ciências Médicas de Santos, com solenidade realizada na AMS, com a presença do prefeito Sílvio Fernandes Lopes.

Depois dele assumiu Antonio Thomaz Pacheco Lessa Júnior, que também presidiu assembléias e reuniões da classe na luta pela dignidade profissional. Em sua gestão foi realizado o Congresso Pan Americano de Medicina do Trabalho, organizado por Oswaldo Paulino. Em setembro desse ano uma vitória da Medicina: a realização de um transplante quádruplo de coração, rins e pâncreas.

Outro fato que deve ser lembrado foi a criação da Unimed, no dia 18 de dezembro, pelo médico Edmundo Castilho, para acabar com a invasão da medicina de grupo.

Na primeira eleição realmente livre após o golpe, Santos escolheu remar contra a maré, em 1968. Não só votou na oposição à ditadura, como elegeu o primeiro prefeito negro de uma cidade média brasileira, Esmeraldo Soares Tarquinio de Campos Filho. Entre a eleição e a posse em março de 69, o Brasil vive o golpe dentro do golpe, que levaria à edição do Ato Institucional n° 5, o AI-5. Tarquinio foi cassado, seu vice, Oswaldo Justo, renunciou em solidariedade, e veio a intervenção militar e depois a decretação da cidade como “área de segurança nacional”, prefeitos nomeados pelo Conselho de Segurança Nacional. Santos torna-se, então, a capital dos políticos com mandatos extintos e com direitos políticos suspensos por dez anos. Entre eles estava, por exemplo, Mário Covas e Rubens Paiva, que teve menos sorte que o primeiro e morreu sob torturas.

Foi um período de temores intensos em que a liberdade de reunião e de expressão eram sinônimos de “subversão á ordem”. Lutávamos, também, ao nosso modo e no que nos competia. Por exemplo na denúncia, em 1967, durante a presidência de Antonio Augusto Arantes, da implantação dos sistema de livre escolha pelo INPS, que aglutinou os antigos IAPs. “Isso não trará os benefícios anunciados, pelo contrário, colocará em risco todo o sistema público de saúde”, alertávamos contra a corrente, numa quase premonição.

Era 1969, 30 anos de vida associativa. José Goulart Penteado dirigia a AMS. Cirurgião e angiologista competente, ele realizou na sede o Congresso Regional da Associação Paulista de Medicina, com 314 participantes. Outra providência tomada em sua gestão foi a reforma dos estatutos, ampliando o mandato da diretoria para dois anos.

Foram dezesseis longos anos até o fim da intervenção em Santos, a primeira eleição livre somente aconteceu em 1984, na ebulição das “Diretas-Já”. Durante este tempo, Santos viu esvaziar-se muito de sua importância econômica, política e cultural, não apenas em razão da ditadura, naturalmente, mas com uma boa ajuda do divórcio entre a população e seu governo. O resultado da eleição mostrou uma cidade “ranheta”, como anotou o editorial do jornal Folha de S. Paulo, que elegeu para prefeito, Oswaldo Justo, o vice que renunciara em 69, tendo como vice, o filho de Esmeraldo Tarquinio, que morrera dois anos antes. “Justiça histórica”, dizia-se.

Anos 70

O início da quarta década trouxe Oswaldo Paulino, um grande conhecedor de Medicina do Trabalho, para a presidência, agora de dois anos. Para promover a reforma na sede abriu um Livro de Ouro, que contou com a participação decisiva dos colegas. Também foi em busca de outra receita alternativa, lançando o atestado médico padronizado.

Para o biênio 71/73 chega Edmon Atik na diretoria da AMS. Ele ampliou as dependências da sede – inclusive a construção da piscina – e conseguiu junto à diretoria da APM recursos para aquisição de terreno na Rua Bahia e construiu a Casa do Médico. Em sua gestão começou a Galeria Piada, coordenada durante dez anos pelo ginecologista Léo Mendes Coelho e Mello, que trouxe grandes nomes para expor na AMS.

De 1973 a 1977 (pela primeira vez, reeleição), Manoel Valente de Almeida e Silva esteve à frente da presidência da associação. A Cidade de Santos passa por muitos problemas de enchentes, que duram até os nossos dias. Ele concluiu as obras da piscina e da Casa do Médico, além de reformar o salão nobre e colocar as poltronas estofadas. Promoveu campanha para aumentar o número de associados e, com a ajuda constante da esposa Maria Júlia, conseguiu transformar o almoço de domingo em pontos de encontros dos colegas.

José Carlos do Rego foi eleito para o biênio 77/79 e foi ele quem abriu espaço para a instalação do Sindicato dos Médicos em uma das dependências da sede. As críticas nessa época eram voltadas contra o INPS, devido à falta de recursos para a implantação de um programa sério de saúde. Juntos, Sindicato e AMS deflagraram uma greve contra a Santa Casa, que durou cerca de duas semanas. Em sua gestão foi determinada a obrigatoriedade de participar da Mútua Assistência a todos os sócios.

Depois de sua gestão duas chapas disputaram a presidência da entidade para o biênio e saiu vencedor o ortopedista George Bitar, que instituiu a homenagem, durante o Dia do Médico, aos sócios com mais de 40 anos nos quadros da entidade.

Arrojado, Bitar lançou uma rifa e com a ajuda dos colegas conseguiu comprar a casa localizada nos fundos da sede, visando ampliar o espaço para os sócios. Com ele foi criado o AMS Jornal, que continua até hoje. Em sua gestão foram realizadas várias assembléias em defesa da classe.

No período de 1981 a 1983 assumiu a presidência o cirurgião Luiz Fernando Chierighini Bueno, que recepcionou em nossa sede o grande cientista Albert Sabin. Os problemas com a Santa Casa continuam. Em maio a Prefeitura de Santos intervém no hospital. No dia 2 de outubro de 82 foi promovida a marcha da Santa Casa, organizada por líderes sindicais em solidariedade às ameaças de demissões no hospital. A Santa Casa, que chegou a ser fechada neste período, foi motivo para muitas assembléias polêmicas na sede da AMS.

Anos 80

Santos terminou os anos 80 mantendo sua tradição política e elegendo a esquerda para governá-la. Não mais a esquerda comunista tradicional, mas através do Partido dos Trabalhadores, que escapara quase ileso da queda do Muro de Berlim, exatamente por não ser tradicional. Foram duas eleiçõas consecutivas. Os solavancos foram muitos, mas a cidade parecia querer ressurgir no cenário nacional, retomar as energias perdidas durante o longo período de interdição política. Os solavancos nacionais não eram menores.

No biênio 83/85 assume o clínico Mário da Costa Cardoso Filho, que posteriormente foi também presidente da Associação Médica Brasileira. Nesse período a classe enfrentava uma nova realidade: o fim da época romântica do exercício da Medicina. Eram tempos de luta para que os convênios respeitassem a Tabela AMB. Ocorreu a paralisação do serviço médico em Praia Grande. Também os médicos participaram, então, do Movimento Diretas Já, para a eleição do presidente da República.

Durante a próxima diretoria, 85/87, falava-se em Santos na reativação do cassino do Monte Serrat, que seria uma grande atração e incentivo para o turismo local. Na AMS estava na presidência o psiquiatra Gilberto Simão Elias, em uma fase em que foram realizadas várias assembléias durante o movimento de paralisação dos médicos da Prefeitura de Santos.

Os 50 anos da AMS foram comemorados na presidência de Itiberê Rocha Machado, que tinha na vice-presidência José Luiz Camargo Barbosa, que o sucedeu,assumindo a AMS em uma fase em que novamente os médicos se defrontavam com o achatamento salarial e o domínio dos convênios que brigaram para determinar o nosso preço. Em 89 o povo saiu às ruas para festejar o direito de votar novamente para presidente da República.

Na primeira eleição presidencial livre depois de 1961, Fernando Collor de Mello foi eleito em 1989, abrindo um período de enorme turbulência. Até sua renúncia – que impediu a aplicação certa de um impeachment – o país passou por uma de suas mais complicadas e ricas fases históricas. Itamar Franco, o vice empossado, concluiu o governo conseguindo estabelecer uma certa estabilidade montária. Uma necessidade tão premente para os brasileiros que levou o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, a uma fácil vitória na eleição de 1994, repetida em 98, graças a uma mudança na Constituição, permitindo a reeleição, instituto que inexistia no Brasil. Em Santos, uma reunião em novembro de 1990 definia o futuro do Porto de Santos. Era o início da privatização, um processo muito doloroso para os trabalhadores.

De 91 a 93 Oscar de Oliveira Júnior realizou uma festa dos anos 60 na AMS, trazendo um show dos Golden Boys. Um dos pontos de destaque foi a realização de um congresso de Cardiologia que reuniu mais de 250 profissionais de todo Estado.

Em 94 aconteceu a implantação do real, uma nova moeda e, mais uma vez, uma nova esperança para o Brasil, que também conquistava o título de tetracampeão do mundo. Em nossa associação Aléxis Caneiro reativou a Galeria Piada, realizou o I Recital do Coral da AMS, criou o Projeto Diac junto com a Unimed (voltado para crianças carentes da comunidade) e enfrentou dificuldades financeiras em época de crise.

Quando Alberto Augusto Guimarães Gonçalves assumiu em 95 a primeira providência foi sanear todos os problemas financeiros da AMS. Depois realizou reformas administrativas e reformas urgentes na sede, como a reparação das instalações elétricas e do teto. Em sua gestão foi criada a Central de Convênios, uma tentativa da classe médica em lutar contra o poder das empresas querendo determinar os salários dos profissionais. Quase ao final da gestão comprou o terreno para ampliação da sede, com recursos próprios.

Luiz Carlos Ferraz assumiu em 97 e terminou de pagar o terreno para começar o projeto de reforma da sede. Esta reforma, entregue oficialmente em 18 de outubro de 1999, durante as comemorações do Dia do Médico, incluiu a construção de dois anfiteatros, construção de uma nova piscina com aquecimento solar e a criação de uma pinacoteca, novo salão de festas e nova cozinha. Na área de assistência social criou o Departamento Jurídico (civel, criminal e trabalhista) gratuito para o associado, firmou convênios de saúde (odonto, psicologia e fonoaudiologia). Colocou a AMS na internet.

Os anos 90 podem ser caracterizados por um período ae intensas crises, agravadas por uma dramática mudança nas relaçõeo de produção e consumo em todo o mundo e pela imposição de políticas monetaristas e de franca abertura de mercados, espalhada por todos os continentes, que acabou batizada de “globalização”. Rearrumações, reformas, mudanças. Essas parecem ser as palavras chaves dos anos 90 que nos trouxeram queda de crescimento, desemprego e queda do padrão de vida.

Santos não escapou da regra geral, naturalmente. Mas registrou inegáveis avanços na área de saúde, por exemplo, embora nem sempre consensuais fossem as mudanças feitas. A cidade, como ocorreu em 1963, dividiu-se aos poucos mas inapelavelmente. A coalisão de centro-esquerda que governara a cidade até 96, foi substituída no ano seguinte por uma coalisão de centro-direita, sob a direção do prefeito Beto Mansur, que encerra o século.

Com as distinções ideológicas já quase sem sentido, substituídas pelas diferenças administrativas na percepção popular, aquela ênfase à saúde pública, por exemplo, marca dos governos do início da década, foi mantida com poucas alterações e deveremos atravessar o milênio com as estruturas atuais.

Em 60 anos o status do médico mudou completamente. Nossa associação com o esforço de todos os seus ex-presidentes e suas diretorias acompanhou os novos tempos. Todos tentaram, na medida do possível, fazer sua parte com responsabilidade e seriedade. Nessa caminhada é importante fazer um agradecimento especial a todos esses profissionais que dedicaram seu tempo à nossa entidade, com muita determinação, e às suas esposas que os acompanharam com carinho e compreensão.

Que a união da classe, o amor pela Medicina, a valorização da relação médico-paciente e a formação de novos profissionais competentes e humanistas tragam para esta casa, cada vez mais, a ousadia, a coragem e a solidariedade que moveram aqueles homens sonhadores que em 1939 resolveram fundar uma Associação dos Médicos de Santos.

Histórico dos Ex-Presidentes da AMS

 

Dra. Lourdes Teixeira Henriques 2011-2014

Dr. João Sobreira Neto  2008-2011

Dr. Arnaldo Duarte Lourenço  2005-2008

Dr. Percio Ramón B. Becker Benitez  2002-2005

Dr. Carlos Henrique de Alvarenga Bernandes  1999-2002

Dr. Luiz Carlos P. Dias Ferraz  1997-1999

Dr. Alberto Augusto Guimarães Gonçalves  1995-1997

Dr. Aléxis Carneiro  1993-1995

Dr. Oscar Oliveira Junior  1991-1993

Dr. José Luiz Camargo Barbosa  1989-1991

Dr. Itiberê Rocha Machado  1987-1989

Dr. Gilberto Simão Elias  1985-1987

Dr. Mario da Costa Cardoso Filho  1983-1985

Dr. Luiz Fernando Chierighini Bueno  1981-1983

Dr. George Bitar  1979-1981

Dr. José Carlos do Rego  1977-1979

Dr. Manoel Valente de A. Silva  1975-1977

Dr. Manoel Valente de A. Silva  1973-1975

Dr. Edmon Atik  1971-1973

Dr. Oswaldo Paulino  1970-1971

Dr. José Goulart Penteado  1969-1970

Dr. Antonio Thomaz Pacheco Lessa Junior  1968-1969

Dr. Antonio Augusto Arantes  1967-1968

Dr. Celso Aguiar  1966-1967

Dr. Frederico Menzen Junior  1965-1966

Dr. Gino Sarti  1964-1965

Dr. Jair de Oliveira Freitas  1963-1964

Dr. Jorge Vieira de Mello  1962-1963

Dr. Heitor Moreno  1961-1962

Dr. Alcebíades Salles  1960-1961

Dr. Aloysio Ribeiro de Mendonça  1958-1959

Dr. Jayme Melchert de Castro  1959-1960

Dr. José Ferreira Pontes  1957- 958

Dr. Emilio Navajas Filho  1956-1957

Dr. Victor Vallejo Fernandez  1955-1956

Dr. Edmir Boturão  1954-1955

Dr. Acácio Ribeiro Vallim  1953-1954

Dr. Marcilio Dias Ferraz  1952-1953

Dr. Edgard Ferraz Navarro  1951-1952

Dr. Oscar Luiz Santos Dias Sob  1950-1951

Dr. Luiz de Souza Dantas Forbes  1949-1950

Dr. Edgard Boturão  1948-1949

Dr. Antonio Arantes  1947-1948

Dr. Alberto Aulicino  1946-1947

Dr. João Carlos de Azevedo  1945-1946

Dr. Edgardo Boaventura  1944-1945

Dr. José Dias de Moraes  1943-1944

Dr. Dirceu Vieira dos Santos  1942-1943

Dr. Arthur Domingues Pinto  1941-1942

Dr. Samuel Leão de Moura  1939-1940