Conto: Presente ao Médico

Quando me formei medico há mais de 40 anos, os jovens doutores viviam com entusiasmo o aguardo da licença no conselho regional de medicina, que oferecia ao novo médico o documento legal para o exercício da atividade em todo o país, possibilitando consolidar antigos e novos sonhos com legítima autonomia.

Foi grande minha expectativa em esperar alguns meses para receber o CRM definitivo e com ele o tão almejado carimbo médico. Nunca imaginei que daqui para frente minha vida seria totalmente diferente, agora tinha carimbo de médico, era independente, livre para arrojar na vida, poderia clinicar em qualquer lugar do país, era só usar o carimbo, realizar meu sonho como médico receber dinheiro, e desfrutar o restante da vida, talvez minha vivência nesta época refletia a tranquilidade de minha ignorância.

No início de minha carreira médica nas horas vagas quando não tinha nada para fazer, confesso que ficava imaginando como confeccionar meu carimbo médico, planejava qual seria a melhor letra, melhor disposição, qual a cor de tinta a ser usada, preta, azul, verde, tudo para demonstrar segurança conhecimento, elegância, dignidade, todos estes conceitos reunidos e resumidos em um simples e pequeno carimbo.

Ficava sonhando com o desempenho na profissão treinava carimbar, carimbava blocos de receita médica, rascunho, papel de embrulhar pão, em qualquer espaço que coubesse um carimbo, eu exercia o direto de carimbar. Com carimbo em mãos rumei para o litoral, o destino reservou-me estudar e formar-me médico no interior do estado de São Paulo e especializar-me e praticar medicina no litoral deste estado.

Na época estimava que no litoral, a prática médica seria igual ao interior, minha postura era talvez de ansiedade do desconhecido, teria que pôr em prática o que tinha apreendido, carimbar algumas receitas, e aproveitar a vida isto ficou claro quando trabalhei como médico alguns meses no interior já tinha ouvido muitas histórias sobre os presentes de gratidão que os pacientes ofereciam a seus médicos no interior, alguns pacientes davam a seus médicos novilhos eu achava que era o máximo do desempenho médico, um médico receber um boi como presente de seu paciente agradecido, vinha embutido no presente o conceito geral de médico com conhecimento científico notório, com grandeza de caráter, bem sucedido, existia o conceito popular que o médico tinha grande patrimônio, era possuidor de muitos bens, inclusive fazenda tudo conquistado com a pratica do exercício médico exemplar, o dinheiro em conseqüência do bom desempenho médico, sendo seu carimbo usado majestosamente. Nesta época trabalhei pouco tempo no interior e fui pago com meu digno e honroso salário e com gratidão, de alguns pacientes que me ofertavam presentes como, doces de leite, mandioca, jabuticabas, pano de prato, etc., cheguei a ganhar no interior várias galinhas vivas talvez por minha juventude, os pacientes supunham que o jovem médico estava iniciando a vida profissional, com experiencia limitada, talvez começando um pequeno poleiro de galinhas que futuramente se transformaria em uma fazenda de gado.

Quando optei por viver no litoral achava que era igual ao interior, ouvi história de médico bem sucedido no litoral que recebeu como presente, enorme quantidade de camarão grande (em média cinco unidades de camarões perfazendo 1 kg, isto é camarão grande) após atender uma paciente e usar com grande satisfação meu precioso carimbo médico, confeccionado com a mais precisa e sensível disposição de letras e cores qual minha surpresa, uma paciente me agraciou com uma fieira de caranguejos vivos “Doutor trouxe estes caranguejos todos muito bem escolhidos são bem graúdos”, quando olhei vi uma enorme fieira de crustáceos vivos com carapaça, suas patas peludas e presas pontiagudas em constante movimento, deparei-me com os olhos dos bichos saltitando e se recolhendo constantemente, pensei e agora o que faço, antes de refletir sobre o meu presente a paciente sugeriu uma receita para os animais, ”é só colocar em uma panela de água fervendo que eles vão ficar uma delícia e no tempero, use, cebola, alho, tomate, tem que ter uma pitada de cerveja”.

Imagine só a situação, início de carreira ainda jovem chegando em casa agradecido por usar muito bem meu carimbo e trazendo o mimo recebido da paciente em gratidão ao dia trabalhado, avisando minha mulher: “Querida trouxe alguma coisa para o nosso jantarzinho, hoje não vamos tomar vinho eu já trouxe cerveja, que podemos usar também no tempero destes dóceis caranguejos, é fácil de fazer, em uma panela grande deixe a água ferver por um bom tempo, após coloque os caranguejos vivinhos, se algum tentar fugir pelas bordas da panela com uma colher de pau empurre o animal água quente abaixo”.

Na realidade minha esposa chegava de um dia de trabalho exaustivo, cansada, provavelmente esperando uma refeição já pronta com enormes camarões, e não uma fieira de pobres caranguejos vivos que seriam submetidos a morte por afogamento, queimados vivos em água quente, toda esta tortura sendo realizada nos porões de nossa purificada cozinha.

Mas o litoral oferece soluções mágicas, próximo de minha residência tem um canal de águas fluviais construído pelo engenheiro e sanitarista Saturnino de Brito inspirado na luta de Osvaldo Cruz com intenção de erradicar as doenças infecto contagiosas predominantes na região no início do século passado o porto de Santos era conhecido como “porto maldito”, estes urbanistas lutaram pela defesa sanitária da cidade, solucionaram o problema drenando o mangue e agora quase no centenário de construção dos canais, no ano de sua comemoração descobri mais uma nova utilidade dada aos canais, a de salvar caranguejos que tinham como destino a água quente da panela, isto foi à porta da liberdade dos dignos animais.

Fiquei muito contente com o destino dado ao presente que ganhei, pois no pior cenário poderia ter recebido de presente duas dúzias de ostras, como ganhei em ano seguinte…, mas isto é outra história.
Ah… Quanta saudade do velho e bom interior aonde não existia nada disso, era tudo muito simples e tranquilo, com as galinhas que ganhava era só cortar o seu pescoço e tudo resolvido.

Autor: Vicente Tarricone Junior