Salvando Vidas

O município de Bertioga, no litoral paulista há quarenta anos era distrito de Santos, naquela época não existia neste trecho do litoral paulista a rodovia Rio Santos, portanto para chegar a Bertioga era preciso atravessar o município de Guarujá   passar por duas balsas, ou via trajeto marítimo pelo canal de Bertioga. Algumas praias de Bertioga o acesso somente ocorria pela areia da praia quando a maré permitia, como a praia de São Lourenço

O distrito de Bertioga tinha uma estrutura de saúde gerenciado por Santos com unidades básicas de saúde na periferia e um pronto socorro central com limitações ao atendimento, nenhum procedimento cirúrgico era realizado no município, todos os casos que necessitassem de procedimentos invasivos deveriam ser transferidos para o município mais próximo Guarujá, ou Santos.

Nesta época eu jovem médico lotado na prefeitura de Santos, no cargo de médico eventual sem vínculo empregatício ávido para trabalhar e necessitando dinheiro, fiquei  agradecido por ter conseguido um emprego no extremo do município de Bertioga, quase divisa com São Sebastião, litoral norte do estado de São Paulo sendo designado para atuar  semanalmente no domingo em unidade básica de saúde dentro de  sala de aula em escola pública na praia de São Lourenço onde o acesso era exclusivo pela praia em maré vazante.

A condição de atendimento era muito precária, mas a relação com a comunidade era muito boa, os médicos criavam muitos vínculos afetivos com os habitantes de região. O comércio no local era inexistente então os moradores disputavam  a honra de convidar o doutor para almoçar  em sua residência que consistia em refeições fartas e alimentos regionais como tainha com banana verde, camarão com palmito, peixe na folha de bananeira etc., existia também nesta comunidade o hábito da sesta, era imperativo, portanto após o almoço os doutores terem o direito a um cochilo antes do turno da tarde.

Certa vez no fim do dia já próximo de voltar a Santos aguardando a maré baixar tivemos a informação que uma égua estava em trabalho de parto e tudo corria bem. Como de hábito ao voltar para casa levávamos os presentes ofertados por pacientes como bananas, mandioca, peixes, caranguejos etc. tudo dentro do transporte oferecido pela prefeitura que era uma ambulância geralmente com paciente e familiares que porventura necessitasse de remoção a outro município.

Chegando em casa domingo à noite, após mais um dia de aventura recebi um telefonema de Bertioga  de um paciente solicitando que retornasse na praia de São Lourenço pois a égua ainda estava em trabalho de parto, e na  avaliação  dos moradores com grande possibilidade de risco de morte durante o parto, os habitantes da região já tinham esgotado todas as possibilidades de atendimento adequado, com tentativas infrutíferas de contato com veterinário, serviço de atendimento a animais da polícia militar etc. não conseguido nenhuma forma de assistência eles deduziram que meus préstimos poderiam ser úteis sabedores que eu era cirurgião de mamas.

Disse a ele que eu não era a pessoa adequada a realizar o atendimento pois não entendia nada de veterinária muito menos de égua, mesmo assim ele insistiu muito porem fiquei firme em minha decisão, de não me aventurar.

Quando desligo o telefone minha esposa inicia uma batalha verbal

— Como pode ser tão frio em deixar a égua morrer, o animal morrerá de todo o jeito sua tentativa oferecerá uma oportunidade.

Tentei explicar que se eu fosse atuar no caso seria o suficiente para a égua morrer.

Mesmo com decisão já definida de não me envolver aonde não entendo confesso que fiquei desconfortável com o clima criado e provável desfecho ruim para a pobre da égua, na verdade foi a primeira vez como mastologista não conseguia dormir por causa de uma égua. Neste momento ao deitar para descansar de um dia agitado minha mulher perguntou a ultima vez “você não vai mesmo”, por alguns minutos de grande silencio, tomado por um turbilhão de reflexões conflitantes sobre vida, morte, por impulso tomei outra decisão,  iniciei uma maratona para achar um veterinário em Santos no domingo início da madrugada que se dispusesse a ir até Bertioga.

Após vários telefonemas dentre os quais a um amigo ginecologista que estava de plantão no PS central de Bertioga, imaginem a situação ao ligar para este amigo, no meio do plantão solicitando ajuda no trabalho de parto de uma égua, foram várias tentativas de expor a situação e todas seguidas de interrupção do telefone, “ele bateu o telefone na minha cara várias vezes” aí tive que usar uma estratégia que funcionou liguei para sua esposa  Dra. Leila que residia em Santos e expliquei a situação da pobre égua, como todos já podem calcular a interseção de sua esposa resolveu a situação e o amigo foi convencido que poderia escutar o telefonema até o final, após ouvir algumas queixas, agressões verbais e muitos palavrões, consegui que concordasse com a utilização da estrutura do pronto socorro oferecendo o apoio logístico necessário, ao veterinário.

Com objetivo de convencer o veterinário de Santos a ir a outro município planejei meticulosamente a seguinte tática, liguei ao Dr. Valmir, que era compadre do meu amigo de Bertioga e Dra. Leila sua esposa que neste momento já era militante da causa, ele se prontificou imediatamente a atender o caso

Lá rumamos com destino Bertioga Dr. Valmir eu, minha esposa, que pelo interesse demonstrado no caso, sugeri que participasse pessoalmente, mesmo ela tendo usado o argumento que sua presença não iria modificar em nada o andamento do caso, já que não era da área de saúde, meu contra  argumento foi devastador “se você não for ninguém vai, pois tudo foi iniciado por você”.

Após atravessarmos duas balsas na madrugada com muito frio, chuva e vento forte que vinha do mar, chegamos ao Pronto Socorro meu amigo, nos aguardava com humor não muito amigável porem por influência e proteção da Dra. Leila sua esposa, que participava e monitorava toda nossa aventura por telefone a  ambulância estava preparada pois era o único meio de transporte que poderia passar pela praia com chuva e maré alta para chegarmos ao estábulo.

Confesso que fiquei muito emocionado ao chegar ao estábulo de ambulância, o motorista posicionou o veículo com os faróis direcionado a égua  já que a iluminação do estabulo era precária, frio de inverno, várias pessoas em silencio ao redor da égua que sofria em trabalho de parto obstruído fomos calorosamente recebidos com aplausos e vivas pelas pessoas presentes no local, o clima era de alívio pois a oportunidade de solução e esperança da égua viver estava chegando de ambulância iluminada da prefeitura, com veterinário

Meu amigo com uniforme branco do plantão foi o primeiro a descer e de imediato pisou na lama do estábulo, com chuva, vento imaginem o estrago, ficou todo respingado com grandes manchas em seu vestuário, confesso que seu cheiro após a aventura não era dos melhores, uma mistura de terra, maresia, cheiro de estabulo Em alguns momentos, nossos olhares se cruzaram e percebi seu olhar fixo e firme em minha direção, mas preventivamente desviei o olhar várias vezes e prudentemente nunca perguntei a ele sobre o que estava pensando naquele momento.

Dr Valmir prontamente após examinar o animal e realizar algumas manobras obstétricas resolveu a situação retirou a cria salvando a égua com uma habilidade que impressionou a todos os presentes, orientou os caiçáras sobre cuidados que deveriam adotar com o animal, e considerou um sucesso. Pelo seu empenho, dedicação e competência não cobrou nada, hoje este anjo, na forma de veterinário, já não está entre nós teve morte prematura ainda jovem.

Quando retornamos a Santos já era dia e cada um seguiu seu destino  minha esposa foi dar aula na universidade, Dra. Leila em paz com sua atuação, Dr. Valmir continuou a usar o talento destinado a ele por Deus que foi a missão de salvar vidas de animais, meu amigo de plantão em Bertioga não inclui na pesquisa, pois sei qual era sua opinião. Fui ao refeitório do hospital que trabalho  alguns plantonistas comentavam os casos vivenciados durante a noite, quantos procedimentos cirúrgicos e partos ocorreram, etc., quando alguém me perguntou o que eu estava fazendo naquela hora no hospital pois não estava na escala de plantão, falei pausadamente com ar pensativo, devaneando, olhar vago e leve sorriso nos lábios, “ajudei a salvar uma égua pangaré” levantei e fui embora.

Autor: Vicente Tarricone Junior (Mastologista)