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Transexualidade, disforia de gênero

A não aceitação da aparência física com o sexo é a forma mais extrema de distúrbio da identidade sexual, anteriormente também chamada de  “transtorno de identidade de gênero” (que tem sido abolido pelo reconhecimento cada vez mais frequente que não se trata de sintoma de um distúrbio mental). Trata-se na realidade de uma discordância (incongruência) entre o sexo aparente e sua identidade de gênero é um desejo de viver e ser aceito como pessoa do sexo oposto ao do nascimento. Disforia de gênero é uma condição em que o paciente sente que sua identidade de gênero é incompatível com seu sexo biológico real.

O diagnóstico apóia-se em critérios clínicos tais como: desejo intenso de pertencer ao sexo oposto, dificuldade de adaptação precoce, antipatia pelo órgão genital, baixa freqüência de relações heterossexuais e baixo impulso sexual.(1) O diagnóstico diferencial deve ser feito com homossexualismo, travestismo, início precoce de desordens da personalidade, crises da adolescência, desordens intersexuais e psicoses.

Na França deixou de ser considerado como transtorno mental desde 2010, e a OMS (Organização Mundial de Saúde já se comprometeu em retira-la na nova edição da Classificação Internacional de Doença – CID (atualmente classificada como F64). Não ha estatísticas em nosso meio (Brasil) mas a prevalência global é de 4,6 em 100.000 nascimentos (2), e existem estudos europeus e asiáticos que apontam prevalências de 1:11.900 nascimentos com sexo genético XY e de 1:30.400 nascimentos com sexo genético XX.(3)

De suma importância, destacar que disforia de gênero não é homossexualidade (orientação sexual). A grande maioria dos portadores de disforia de gênero apresentam distúrbios psicológicos e ou psiquiátricos, portanto é fundamental o acompanhamento com esses profissionais (psicólogos e/ou psiquiatras).

Sentir que seu corpo não reflete seu  verdadeiro sexo causa grave angústia, ansiedade e depressão. “disforia” é um sentimento de insatisfação, ansiedade e inquietação. Desde de a infância preferem amigos do sexo com o qual se identificam e rejeitam  as roupas, brinquedos e brincadeiras típicas para meninos ou meninas e muitos se recusam a urinar da maneira que seu sexo aparente faz – em pé ou sentado. É frequente dizer que querem se livrar de seus órgãos genitais e principalmente meninos trans, sofrem muito com a presença das mamas e com as transformações corporais que a puberdade traz. Sempre sofrem algum tipo de preconceito e certa incompreensão da sociedade.

No Hospital Guilherme Alvaro, temos um ambulatório para atendimento a esse grupo de pacientes desde março de 2015, que funciona junto ao nosso ambulatório de endocrinologia, e contamos com uma equipe multidisciplinar (assistente social, psicóloga, endocrinologista, urologista, ginecologista, mastologista e cirurgião plástico, além de atualmente termos uma parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil – OAB através da Comissão de Diversidade Sexual e Direito Homoafetivo – OAB – Santos)  e damos apoio jurídico para retificação do prenome (nome social), que no Brasil só é possível através de ação judicial. Para manter-se dentro do nosso programa de atendimento, é obrigatório o acompanhamento com a nossa psicóloga, é nosso objetivo oferecer um amplo tratamento adequado,  psicoterápico, medicamentoso e cirúrgico.

A reposição hormonal é um importante componente no tratamento médico, e deve sempre ser realizada por endocrinologista com experiência, hoje temos  algumas diretrizes, como a recentemente publicada no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism(4) com a participação de diversas associações americanas.

A terapia de reposição hormonal em mulheres trans baseia-se no uso de estrogênios e têm como objetivo desenvolvimento das características femininas e manutenção da massa óssea. Os anti-androgênicos podem ser utilizados para diminuir as características sexuais masculinas.
Efeitos adversos da terapia de reposição hormonal incluem: tromboembolismo venoso, aumento dos níveis de prolactina e depressão,entre outros. Já para homens trans, baseia-se no uso de testosterona, e os principais efeitos colaterais aumento da oleosidade da pele e aparecimento de acne aumento da pressão arterial e aumento dos glóbulos vermelhos.

 

  1. Athayde A V L. Transsexualismo Masculino. Arq Bra Endocrinol metab 2001; 45 (4)
  2. Arcelus J, Bouman WP, Van Den Noortgate W, et al. Systematic review and meta-analysis of prevalence studies in transsexualism. Eur Psychiatry. 2015;30(6):807-15.
  3. De Cuypere G, Van Hemelrijck M, Michel A, et al. Prevalence and demography of transsexualism in Belgium. Eur Psychiatry. 2007;22(3):137-41
  4. J Clin Endocrinol Metab, November 2017, 102(11):1–35

Autor: Dr. Erico Pauli Heilbrun – Endocrinologista e Diretor CIentífico da APM Santos